O Brasil é um país previsível, e isso não é um elogio. A soltura de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, pelo Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1), é a prova cabal de que, em solo brasileiro, as instituições funcionam sob a batuta de uma única regra: a "instituição do QI" — o "Quem Indica". Enquanto o cidadão comum se vê preso em uma teia interminável de burocracia e impostos, os amigos do poder parecem ter um passe livre garantido por um sistema de conexões que ignora solenemente o que está escrito no Código Penal.
A rapidez com que Vorcaro saiu da prisão preventiva para o conforto de sua casa é de cair o queixo, mas não deveria nos surpreender. Estamos falando de alguém que circula com desenvoltura pelos corredores de Brasília, com trânsito livre entre governo, oposição e o Congresso. Quando você tem as pessoas certas no bolso, a justiça deixa de ser um pilar de ordem e se torna uma mera sugestão. Ele entregou o passaporte? Sim. Está com tornozeleira? Talvez. Mas o fato é que o sistema deu um jeito de acomodá-lo antes mesmo de o caso esfriar.
O que causa uma indignação legítima é o contraste vergonhoso. Quando o alvo é o ex-presidente Bolsonaro ou os presos de 8 de janeiro, a narrativa da "perseguição implacável" impera. Para eles, não há medida cautelar que baste; a prisão preventiva é eterna, o devido processo legal é uma ficção e o direito à defesa é atropelado. No caso de Vorcaro, que tentou fugir em uma negociação obscura envolvendo a Arábia Saudita e os Emirados Árabes, a "justiça" entendeu que ele pode esperar o julgamento em casa. Parece que, para alguns, a lei é de ferro; para os amigos da turma, ela é de algodão doce.
O bastidor dessa soltura é ainda mais emblemático. A decisão veio no momento exato em que o caso subia para o Supremo Tribunal Federal (STF). E adivinhem com quem o processo caiu por sorteio? Com o ministro Dias Toffoli. Sim, o "amigo do amigo do meu pai". A defesa alega incompetência da Justiça Federal, e se o STF concordar, todos os atos e provas colhidos até aqui serão anulados. É o roteiro clássico que já vimos com o atual presidente: anula-se tudo, transfere-se o fórum, ganha-se tempo e, no final, a pizza é servida quentinha para quem tem poder.
Enquanto isso, o prejuízo real fica com os esquecidos. O dinheiro dos aposentados do Rio Previdência, que foi parar no Banco Master sob circunstâncias que a justiça agora parece querer ignorar, sumiu. Alguém está preocupado com o senhor ou a senhora que trabalhou a vida toda e viu seu fundo de pensão ser usado em esquemas de banqueiros? A resposta é óbvia: para o sistema, o povo é apenas um detalhe estatístico. O que importa é manter a engrenagem dos amigos funcionando.
O Brasil precisa decidir se quer ser uma nação institucional ou uma federação de famílias poderosas que mandam e desmandam. A solução não está em mais leis, mas em menos privilégios e em uma limpeza profunda que retire o estado das mãos de quem o usa como balcão de negócios. Precisamos de um sistema onde a lei seja cega de verdade, e não uma que pisque para os amigos.
A "pecinha que falta" na cabeça de quem defende esse sistema é a compreensão de que, sem justiça igual para todos, não existe liberdade nem prosperidade. O brasileiro que "fez o L" autorizou, indiretamente, que a corrupção voltasse a ser tratada como um detalhe de somenos importância. Agora, estamos colhendo os frutos dessa escolha. É hora de uma revolução mental: pare de acreditar na narrativa oficial e comece a observar os fatos. No Brasil de hoje, o crime compensa se você for amigo da turma certa.
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