Imagine que você, para resolver um problema com um vizinho barulhento, decide soltar um leão no bairro. No começo, o leão cumpre o papel: o vizinho fica em silêncio, acuado. Você aplaude, chama o leão de "herói da vizinhança" e ignora os rugidos cada vez mais altos. O problema é que leão não aceita coleira. Uma hora, ele cansa de comer o vizinho e começa a olhar para a sua própria cerca. É exatamente esse o espetáculo de hipocrisia que estamos assistindo agora na grande mídia brasileira.
Recentemente, nomes carimbados do jornalismo, como Malu Gaspar, Pablo Ortellado e Carlos Andreazza, começaram a ensaiar um discurso de "preocupação". O coro é um só: Alexandre de Moraes passou dos limites. O tom mudou de "defensor da democracia" para "precisamos conter o Xandão". Mas por que só agora? A resposta é tão direta quanto um cálculo de engenharia: eles perceberam que o poder que deram ao Ministro agora ameaça o próprio sistema que eles defendem.
Enquanto as canetadas de Moraes serviam para atropelar o devido processo legal contra o ex-presidente Jair Bolsonaro ou para calar vozes da direita sob o pretexto de combater "fake news", o silêncio da imprensa era ensurdecedor. Para eles, o tribunal de exceção era justificado pela "causa maior". O erro de lógica aqui é básico: você não protege a democracia destruindo as leis que a sustentam. Quando você permite que um magistrado invente cautelares, ignore a individualização de condutas e condene pessoas em baciada a penas que superam as de criminosos confessos, você não está salvando o país; você está entregando as chaves da sua liberdade para um monarca.
A ficha caiu para esses jornalistas quando o "gênio xandônico", como bem definiu Andreazza, começou a interferir nos planos do atual governo. Ao barrar nomes de preferência do Lula para o STF e mostrar que tem poder de veto inclusive sobre o Executivo, Moraes provou que não é funcionário de ninguém. Ele se tornou o sistema. A esquerda, que adora falar em soberania, agora treme ao ver que a Constituição foi substituída pela vontade de um único homem. Eles criaram um monstro para bater na direita, mas esqueceram que o poder absoluto não tem ideologia; ele tem fome de mais poder.
É curioso observar o contraste internacional. Recentemente, vimos o caso de Pedro Castillo, no Peru, que efetivamente tentou fechar o Congresso em rede nacional — um golpe de fato. Ele foi condenado a 11 anos de prisão. Aqui no Brasil, sem que um único tiro fosse disparado ou um tanque saísse às ruas por ordem presidencial, fala-se em condenações de quase 30 anos para adversários políticos. A conta não fecha. A desproporcionalidade é o sintoma mais claro de que não estamos falando de justiça, mas de perseguição política sob o manto da legalidade.
Esses jornalistas agora tentam "pular do barco" ou "tirar o corpo fora" para garantir que, no futuro, quando os livros de história registrarem esse período como uma mancha institucional, eles possam dizer: "Vejam, eu alertei". É a velha tática de limpar a biografia depois de ter ajudado a cavar o buraco. Eles sabem que o vácuo deixado pela ausência de uma oposição forte e pelo enfraquecimento das instituições está sendo preenchido por um autoritarismo judicial que não tem data para acabar.
O poder vicia. E quem está no topo, ditando o que pode ou não ser dito, quem pode ou não ser eleito, jamais renunciará a essa condição por vontade própria. O gênio saiu da lâmpada e, para desgosto de quem o libertou, ele não está ali para realizar desejos de jornalistas ou de governantes, mas para impor sua própria lei.
A solução para esse cenário não virá de quem causou o problema. A saída passa pela volta da ordem, pelo respeito irrestrito à Constituição de 1988 — a de verdade, não a que está na cabeça do magistrado de turno — e pela coragem da população de não se curvar à censura. Precisamos de um Estado onde a lei seja o trilho, e não a locomotiva desgovernada.
Não aceite narrativas prontas. Quando a realidade bate à porta, até os "passadores de pano" oficiais precisam admitir que o chão está sujo. O Brasil precisa de cidadãos que pensem de forma estratégica e independente. A maior arma contra a tirania não é o grito, é a verdade fundamentada em fatos.
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