A realidade é um tribunal implacável, e para o atual governo, o veredito das ruas começou a aparecer nos dados. Enquanto o cidadão comum, que acorda cedo e pega ônibus, sente na pele o peso da insegurança, o Palácio do Planalto parece viver em uma bolha de narrativas e disputas de ego. O fato é objetivo: a aprovação do presidente Lula está derretendo, e o principal combustível dessa queda é a incapacidade crônica de lidar com a segurança pública e a criminalidade organizada.
O recente cenário no Rio de Janeiro expôs uma ferida aberta. A população, cansada de ser refém, reagiu positivamente às operações policiais no Complexo do Alemão. O brasileiro quer ordem, quer ver o Estado retomando territórios dominados pelo tráfico. No entanto, em Brasília, a reação não foi de apoio à lei, mas de pânico eleitoral. A preocupação do governo não é, primariamente, como pacificar o Rio, mas como "responder" à popularidade das ações policiais para não perder terreno nas pesquisas.
Aqui entra a lógica da "pecinha estragada". É evidente que a segurança pública é um terreno onde a direita transita com naturalidade, defendendo o cumprimento da lei e o fortalecimento das forças de ordem. Já a esquerda, historicamente ligada a uma visão que muitas vezes vitimiza o criminoso e demoniza a polícia, se vê em uma encruzilhada. Como propor uma solução dura contra o crime sem irritar sua base ideológica ou expor suas contradições internas?
As "soluções" que surgiram nos bastidores do governo beiram o amadorismo técnico. A primeira ideia foi criar uma tal "Aliança contra o Crime pela Paz" — um nome pomposo que nada mais é do que uma manobra de propaganda para tentar transferir o brilho das operações para o presidente. A segunda foi a criação de uma secretaria vinculada diretamente à Presidência. Na prática, ambas as propostas servem apenas para esvaziar o Ministério da Justiça, hoje comandado pelo ministro Lewandowski.
Lewandowski, um jurista de carreira, possui o perfil de um magistrado garantista, o que o torna, na prática, um gestor ineficiente para o combate direto ao crime. Gerir um gabinete com 20 pessoas é uma coisa; liderar um ministério com milhares de servidores e coordenar forças policiais exige um perfil de liderança e execução que simplesmente não está lá. É o "vovô bonachão" tentando apagar um incêndio florestal com um copo d’água.
O governo agora aposta em "atacar o andar de cima" das facções, focando no bloqueio de bens e nas finanças. Embora asfixiar economicamente o crime seja uma estratégia válida e necessária, ela é incompleta. O dinheiro do tráfico nasce na "boca de fumo", no pé do morro. Se o Estado não ocupa o território, se não retira as barricadas que impedem o direito de ir e vir do morador, a estrutura criminosa se regenera. Achar que vai resolver o problema da segurança no Rio apenas com planilhas da Receita Federal, sem o enfrentamento direto no terreno, é mais uma narrativa para evitar o trabalho difícil.
Compreendo que exista uma preocupação com o uso excessivo da força, mas não podemos permitir que essa preocupação se torne uma paralisia que entrega cidades inteiras ao Comando Vermelho ou ao PCC. O governo federal está perdendo o capital político que recuperou recentemente porque insiste em tratar segurança pública como peça de marketing, e não como uma obrigação de Estado.
A solução para a segurança não virá de novas secretarias ou slogans de paz, mas de um Estado mínimo que foque no que é essencial: justiça e segurança. Precisamos de menos interferência ideológica e mais apoio jurídico e técnico para quem está na linha de frente. O Brasil não precisa de narrativas; precisa de ordem. Se o governo continuar batendo cabeça e ignorando a realidade das ruas, o preço será cobrado nas urnas em 2026. É hora de uma revolução mental: pare de acreditar no que dizem as propagandas e olhe para o que acontece na sua calçada.
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