Se você ligar a televisão ou abrir os grandes portais de notícias hoje, vai se deparar com um clima de festa estranhamente artificial. A narrativa imposta é quase unânime: a reunião entre o chanceler brasileiro, Mauro Vieira, e o Secretário de Estado americano, Marco Rubio, seria a prova definitiva de que o governo Lula "venceu", que a diplomacia petista é infalível e que a direita brasileira, simbolizada aqui pela figura de Eduardo Bolsonaro, foi jogada para escanteio. Dizem eles que o "bolsonarismo acabou" e que agora os adultos vão conversar sobre tarifas comerciais e moedas do BRICS.
Como engenheiro e analista que prefere os dados à torcida organizada, preciso dizer: essa narrativa não para em pé diante de uma análise lógica dos fatos. A realidade, infelizmente para alguns, se sobrepõe ao desejo da redação dos jornais.
Vamos dissecar o que realmente está acontecendo em Washington. A imprensa brasileira tenta vender a ideia de que o governo Lula vai conseguir negociar com Donald Trump mantendo tudo como está aqui no Brasil — ou seja, mantendo a censura, as prisões políticas e a insegurança jurídica. Acreditam que vão dobrar Trump com conversas sobre a substituição do dólar no BRICS. Isso chega a ser ingênuo. Trump já sinalizou claramente: quem tentar sair do dólar vai sofrer tarifas pesadas. O assunto "moeda do BRICS" já nasceu morto para os americanos; é uma carta que já foi descartada. A Rússia e a China já recuaram. Apenas o Brasil insiste em uma retórica que não tem lastro na realidade econômica.
O verdadeiro balde de água fria na narrativa governista veio não de boatos, mas de uma declaração pública e direta de Scott Bessent, o secretário do Tesouro dos Estados Unidos. Enquanto aqui se fala em "acordos comerciais", lá fora, o governo americano desenhou os motivos reais das tarifas e da pressão sobre o Brasil. E a lista não tem nada a ver com a soja ou o aço, mas sim com valores fundamentais que vêm sendo destruídos em nosso país.
Bessent foi cirúrgico ao listar as preocupações americanas: o estado de direito (ou a falta dele) no Brasil, a censura desenfreada e as violações de direitos humanos. Para o governo americano, não passa despercebido que um juiz ordene a empresas americanas a aplicação de censura prévia. Eles citam ordens secretas contra a liberdade de expressão, perseguição política a oponentes e até a detenção ilegal de cidadãos americanos e jornalistas — casos que conhecemos bem.
Quando olhamos para os fatos, percebemos que a "justiça" brasileira tem operado com uma criatividade jurídica absoluta, onde a Constituição parece ser interpretada de acordo com a vontade de um único homem, criando leis e punições que não existem no papel. Onde está o devido processo legal? Onde está o juiz natural? Onde está a ampla defesa? Essas são perguntas que, ao que parece, agora estão sendo feitas em inglês, diretamente de Washington para Brasília.
Achar que Marco Rubio, um crítico histórico dos abusos do nosso Supremo Tribunal Federal e um dos arquitetos das sanções contra regimes autoritários, vai simplesmente ignorar tudo isso para tomar um café com Mauro Vieira é não entender como funciona a política externa de uma potência que preza pela liberdade. Rubio é leal a Trump, e Trump sabe exatamente o que é sofrer uma perseguição judicial politizada.
Portanto, a reunião que acontece não é um prêmio para o governo Lula, mas um aperto de parafusos. O Brasil terá que ceder. E não será em questões periféricas. A pressão é pelo retorno da normalidade democrática. A administração americana está colocando na mesa a conta da censura e do autoritarismo.
A imprensa pode continuar celebrando o "fim de Bolsonaro" e a suposta irrelevância da direita, mas se a pauta americana é a defesa da liberdade de expressão e o fim da perseguição política, então a agenda da direita não só está viva, como é o tema central da discussão diplomática.
Para nós, brasileiros, resta a esperança de que esse choque de realidade externa force uma correção de rumo interna. Não se constrói uma nação próspera com censura e insegurança jurídica. Você não consegue vender a imagem de um país sério para investidores estrangeiros enquanto suas instituições agem como um tribunal de exceção. A "pecinha que falta" na cabeça de quem defende o atual estado de coisas é entender que, sem liberdade, não há economia que se sustente. A verdade é filha do tempo, e o tempo das narrativas vazias está acabando.
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