A partir de março do próximo ano, o cenário dos jogos eletrônicos no Brasil sofrerá uma mudança drástica. O governo sancionou uma lei que proíbe as chamadas "lootboxes" em jogos que possam ser acessados por menores de 18 anos. Na prática, isso significa que uma vasta gama de games, incluindo gigantes como Pokémon Go, pode se tornar ilegal no país ou terá que passar por profundas e custosas adaptações. A medida, que chega sob a justificativa de proteger crianças e adolescentes, revela, na verdade, a face de um Estado que prefere a proibição cega à promoção da responsabilidade individual, mais uma vez transferindo para a sociedade a conta de sua incompetência.
Para quem não está familiarizado, "lootbox" é uma espécie de "caixa de recompensa" virtual que o jogador pode adquirir, geralmente com dinheiro real ou moedas do jogo compradas com dinheiro real. O conteúdo dessa caixa é aleatório: pode vir um item raro e valioso ou algo completamente inútil. É uma mecânica de sorte, um jogo dentro do jogo. A narrativa oficial para a proibição se apoia na ideia de que crianças, sem o devido discernimento, poderiam gastar fortunas no cartão de crédito dos pais em busca de recompensas, configurando uma forma de aposta.
Aqui, a realidade se choca frontalmente com a narrativa. O problema central não está na mecânica do jogo, mas na supervisão parental. A responsabilidade de educar uma criança sobre o valor do dinheiro e de controlar seus gastos é dos pais, não do Estado. O que estamos vendo é a terceirização da responsabilidade paterna para o governo. Em vez de fortalecer a família e dar ferramentas para que os pais eduquem seus filhos, o Estado cria uma lei paternalista que trata todos os cidadãos como incapazes. A solução para um pai que não consegue impedir seu filho de gastar sem controle não é proibir o jogo para milhões, mas sim remover o acesso ao cartão de crédito. É simples, direto e eficaz.
O mais grave é que a versão da lei aprovada foi a pior possível. Havia alternativas sendo discutidas, como obrigar as empresas a informar com clareza a probabilidade de se obter cada item na "lootbox". Isso sim seria uma medida liberal e inteligente: dar a informação completa ao consumidor e permitir que ele tome sua própria decisão. Ninguém é obrigado a comprar uma "lootbox"; a decisão é voluntária. Informar as chances seria fortalecer o poder de escolha do jogador. Mas, em vez disso, o governo optou pelo caminho autoritário da proibição total, um reflexo claro da mentalidade estatista que vê o cidadão como um mero súdito que precisa ser tutelado.
As consequências práticas serão desastrosas. Primeiro, a lei é ineficaz em sua essência. Qualquer criança com acesso a um tutorial de cinco minutos na internet pode instalar uma VPN, simular que está em outro país e continuar comprando "lootboxes" normalmente. Ou seja, a lei não resolve o problema que alega combater, servindo apenas para criar burocracia e dificultar a vida do jogador honesto e das empresas sérias.
Segundo, haverá um encarecimento geral dos jogos. As empresas de games são capitalistas; elas existem para ter lucro. Se uma de suas principais fontes de receita é cortada por uma canetada estatal, esse dinheiro terá que vir de outro lugar. Itens que antes eram mais acessíveis ficarão mais caros, passes de temporada custarão mais, ou os jogos simplesmente deixarão de operar no Brasil, um mercado que se torna cada vez mais hostil à livre iniciativa. No final, quem paga a conta dessa lei populista somos nós, os jogadores.
O Brasil, mais uma vez, se coloca na vanguarda do atraso. Enquanto outras nações buscam regulamentações equilibradas, que prezam pela liberdade e pela informação, nosso governo prefere a tesoura da censura e da proibição. É uma mentalidade que asfixia a inovação, pune o consumidor e trata a todos com desconfiança.
A solução não é um Estado-babá que proíbe tudo, mas um ambiente de liberdade onde os pais exercem sua responsabilidade e os indivíduos tomam suas próprias decisões. A revolução que precisamos não é a de mais leis e controle, mas uma revolução mental: a de começar a questionar essas "soluções fáceis" e entender que, muitas vezes, a mão protetora do Estado é a mesma que nos sufoca.
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