A realidade se impõe, doa a quem doer. Enquanto grande parte da mídia se perde em narrativas superficiais sobre o dia a dia, movimentos tectônicos estão ocorrendo no cenário geopolítico e econômico global, sinalizando algo que poucos têm coragem de dizer em voz alta: a Europa está se preparando para uma guerra. E para isso, está disposta a rasgar os manuais de livre mercado e agir com uma intervenção estatal digna de regimes bolivarianos.
Vamos aos fatos, sem rodeios. Recentemente, observamos uma tendência alarmante no continente europeu: a estatização forçada de empresas privadas sob controle chinês. Na Holanda, o governo assumiu o controle da Nexperia, uma fabricante de chips que, embora originalmente holandesa, havia sido adquirida por capital chinês. Não houve negociação de mercado convencional. O governo holandês desenterrou uma lei de disponibilidade de bens criada na época da Guerra Fria — uma legislação que nunca havia sido utilizada antes — para tomar posse da empresa.
A justificativa oficial, como de costume, foi vaga, citando "deficiências de governança". Mas qualquer pessoa com um mínimo de capacidade analítica percebe que falta uma peça nessa explicação. A Nexperia produz chips essenciais para automóveis e eletrodomésticos. Não estamos falando da tecnologia de ponta de 2 nanômetros, mas de componentes vitais para o funcionamento da infraestrutura básica. A lei utilizada foi desenhada especificamente para garantir recursos em caso de conflito armado contra os soviéticos. O recado é claro.
Do outro lado do Canal da Mancha, a Inglaterra seguiu o mesmo roteiro com a British Steel. A única siderúrgica de aço primário restante no Reino Unido, que havia sido vendida a um grupo chinês, foi alvo de uma lei emergencial aprovada por aclamação. O objetivo? Tirar o controle das mãos da China. A situação britânica expõe a hipocrisia das pautas ambientais radicais. As siderúrgicas na Inglaterra foram dizimadas por regulações ambientais draconianas e encargos trabalhistas excessivos, tornando a produção local inviável e transferindo-a para a Ásia. Agora, diante do risco real de um conflito global, os britânicos perceberam que não se faz guerra sem aço e que não podem depender de um potencial inimigo para obtê-lo.
Do ponto de vista econômico, a análise é desastrosa. Essas ações geram uma insegurança jurídica brutal. Qual investidor colocará dinheiro em um país onde o Estado pode, do dia para a noite, confiscar sua propriedade? É uma violência contra o direito de propriedade e a livre iniciativa. Argumentar que "a China também faz isso" é cair em uma armadilha lógica. Se o vizinho comete um erro, isso não me dá salvo-conduto para errar também. A Europa, ao agir assim, nivela-se por baixo, criando incertezas que prejudicarão sua própria economia a longo prazo.
A reação chinesa já começou, com acordos entre empresas para cortar o fornecimento de insumos para as companhias confiscadas. Isso nos leva ao problema das terras raras. A China domina esse mercado não porque o recurso seja escasso, mas porque o processo de purificação é sujo e complexo. O Ocidente, preso em sua burocracia ambientalista, terceirizou essa sujeira para a China. Agora, com a possibilidade de restrições de exportação por parte de Pequim, a Europa e os EUA se veem de mãos atadas. Querem independência estratégica, mas seus órgãos ambientais não permitem a abertura de minas e fábricas locais. É a dissonância cognitiva em estado puro.
A conclusão lógica é que a Europa enxerga a aliança entre Rússia e China como uma ameaça iminente e está blindando sua cadeia de suprimentos, custe o que custar. Estão trocando a liberdade econômica pela segurança militar.
A solução para a soberania não está no confisco estatal, mas na liberdade. Se a Inglaterra e a Holanda querem garantir sua produção de aço e chips, precisam desregulamentar, reduzir o peso do Estado e permitir que suas indústrias sejam competitivas internamente, sem as amarras da burocracia verde que sufoca a produção.
Precisamos de uma revolução mental urgente. É hora de abandonar as narrativas bonitas e encarar a realidade crua da geopolítica: a dependência de nações hostis é o preço que se paga por destruir a própria indústria em nome de ideologias. Que o Brasil abra os olhos antes que seja tarde.
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