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domingo, 14 de dezembro de 2025

O STF ficou pequeno? Por que Flávio Dino planeja abandonar a toga e voltar aos palanques

 
O STF ficou pequeno? Por que Flávio Dino planeja abandonar a toga e voltar aos palanques

Quando olhamos para a estrutura de poder em Brasília, somos levados a acreditar que uma cadeira no Supremo Tribunal Federal é o ápice da carreira jurídica. Vitaliciedade, um salário que coloca qualquer servidor no topo da pirâmide e, teoricamente, a palavra final sobre as leis do país. No entanto, a realidade dos bastidores políticos muitas vezes desafia a lógica do cidadão comum. Para Flávio Dino, a toga preta parece ter se tornado uma camisa de força. Informações recentes indicam que o ministro, indicado por Lula, já articula sua saída da corte suprema para retornar àquilo que realmente move suas engrenagens: a política partidária e o poder executivo.


Para entender essa movimentação, precisamos analisar a situação com a frieza de um engenheiro e deixar de lado a narrativa oficial. O Supremo confere poder, sem dúvida. Os ministros, como vemos diariamente, mandam e desmandam no país. Porém, há uma diferença crucial entre o poder de julgar e o poder de executar. O salário de um ministro, na casa dos 40 mil reais, é considerado uma "merreca" para quem já esteve no comando de um estado ou de um ministério robusto.


No Executivo, a caneta tem tinta forte. É ali que se decide o destino de orçamentos bilionários, onde se constroem obras e, infelizmente, onde a máquina pública gira com mais força. Para um político de carreira como Dino, que já foi deputado, governador e ministro da Justiça, o STF representa uma redução de influência prática. Ele percebe a troca do Ministério da Justiça pela corte como um "rebaixamento" de seu capital político. Ele tinha a chave do cofre e o holofote diário; agora, está limitado aos autos do processo.


Mas a ambição não para na questão orçamentária. O projeto é maior: a presidência da República. A esquerda brasileira enfrenta uma crise de sucessão silenciosa, mas evidente. Lula não é eterno e, para 2030 — ou até antes —, o PT precisa de um nome. Fernando Haddad não empolga nem a própria base; falta-lhe o carisma e a contundência que a militância exige. Dino, por outro lado, preenche esse vácuo. Ele nutre a esperança de ser o herdeiro político desse espólio, apostando que sua figura pode unificar o campo progressista quando o atual presidente sair de cena.


Essa estratégia, contudo, não é apenas sobre o futuro; é sobre sobreviver ao presente. A indicação de Dino ao STF serviu a um propósito duplo e pragmático. Primeiro, blindá-lo das investigações sobre o 8 de janeiro. Como ministro da Justiça à época, sua omissão e o sumiço das imagens das câmeras de segurança seriam pratos cheios para uma CPI séria. No Supremo, ele ganhou a proteção institucional necessária. Segundo, protegeu o próprio governo de um Dino que ganhava "luz demais" e incomodava alas petistas.


Enquanto sonha com o Planalto, Dino usa o cargo atual para intervir no seu reduto eleitoral, o Maranhão. O estado vive uma confusão política sem precedentes. Seu sucessor e antigo aliado, Carlos Brandão, agora é um rival. Dino chegou ao ponto de usar sua posição no STF para barrar indicações de Brandão ao Tribunal de Contas do Estado, sob a justificativa de desvio de finalidade. É a judicialização da política usada como arma de vingança pessoal. O Maranhão, que já sofria sob o julgo da família Sarney, agora vê grupos que orbitavam Dino brigando pelo controle da máquina, enquanto investigações da Polícia Federal apontam desvios massivos em emendas parlamentares.


Há ainda o fator internacional. O ministro enfrenta dificuldades com vistos e o risco de sanções internacionais, como a Lei Magnitsky, que pune violadores de direitos humanos. Para quem gosta de viajar para os Estados Unidos, tornar-se um "pária" internacional não é agradável.


A possível saída de Dino do STF, seja para disputar eleições em 2026 ou 2030, revela o estado das nossas instituições: o Supremo deixou de ser uma corte constitucional para virar um trampolim político ou um refúgio de luxo. Se ele sair, abre-se uma vaga que pode ser preenchida por outro nome alinhado ao governo, ou, num cenário otimista de vitória da direita, por alguém técnico.


Para nós, conservadores e liberais, fica a lição: o Estado inchado e aparelhado sempre servirá aos interesses de quem está no comando, nunca ao povo. A solução não é apenas trocar as peças, mas reduzir o tamanho do tabuleiro. Precisamos de um país onde a política seja um serviço, não um balcão de negócios ou um plano de carreira vitalício. Enquanto o poder estiver concentrado nas mãos de poucos burocratas em Brasília, continuaremos assistindo a esse teatro onde o cidadão paga o ingresso e os atores decidem o final da peça.

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