Quem imaginaria esse cenário? Um influenciador digital, nascido e criado na liberdade da internet, agora se torna o novo contratado de peso da Rede Globo. O nome da vez é Felca, que acaba de ganhar um quadro no Fantástico. Mas, como engenheiro acostumado a analisar sistemas e padrões, digo a vocês: não existem coincidências desse tamanho no jogo do poder e da comunicação. A contratação de Felca pela "velha mídia" não é apenas um reconhecimento de talento; parece muito mais o pagamento por um serviço prestado — consciente ou inconscientemente — que serviu de munição para atacar a liberdade de todos nós.
Vamos aos fatos, sem rodeios. Felca produziu um vídeo viral sobre a "adultização" de crianças e o conteúdo impróprio nas redes. O tema é sério? Sem dúvida. A família e a proteção dos menores são valores inegociáveis. No entanto, o sistema, que não dorme, usou esse material como pretexto imediato para acelerar a regulação da internet. O vídeo serviu de combustível para que políticos, como o deputado Hugo Motta, passassem o trator em cima do debate público e aprovassem o que já está sendo chamado de "Lei Felca".
A hipocrisia aqui salta aos olhos e é preciso ter a coragem de apontá-la. Os casos denunciados pelo influenciador já estavam sendo tratados pela polícia; os responsáveis foram presos antes mesmo de qualquer nova lei entrar em vigor. Ou seja, as leis atuais já funcionavam. Para que, então, criar uma nova legislação às pressas, sem o devido debate? A resposta é simples e técnica: controle. A narrativa de "proteger as crianças" foi a cortina de fumaça perfeita para empurrar uma regulação que, na prática, vai burocratizar o acesso, exigir identificação massiva (fala-se até em reconhecimento facial para logar nas redes a partir de março do ano que vem) e sufocar os pequenos criadores de conteúdo.
E onde entra a Globo nisso tudo? Ora, a televisão tradicional vive uma guerra de sobrevivência contra a internet. A descentralização da informação tirou deles o monopólio da verdade. Ao contratar Felca para uma série de seis episódios sobre "autoestima, bullying e efeitos das redes sociais", a emissora faz uma jogada de mestre em sua própria defesa. O objetivo claro é usar o espaço nobre do domingo para demonizar o ambiente digital, pintando a internet como uma terra sem lei e perigosa, enquanto a televisão se vende como o porto seguro da informação "confiável" e higienizada.
É a velha tática de criar o problema para vender a solução. O influenciador, voluntariamente ou não, ajudou a criar o clima de pânico moral necessário para a classe política justificar a censura e o controle. Como recompensa, ele sai do "quarto com tela verde" para os estúdios milionários do Fantástico. Enquanto isso, a "nova mídia" — os sites independentes, os canais de opinião e você, cidadão que usa as redes para se expressar — recebe a conta: um ambiente digital mais restrito, vigiado e controlado pelo Estado.
Para quem entende de lógica, falta uma "pecinha" na cabeça de quem acredita que essa movimentação toda é apenas preocupação social. É ingênuo achar que a Globo e o Congresso se uniram apenas pelo bem-estar das crianças. Há uma estrutura de interesses financeiros e de poder que se beneficia diretamente do enfraquecimento das redes sociais.
O que vemos é um influenciador que cresceu graças à liberdade da rede sendo cooptado pelo sistema que quer destruir essa mesma liberdade. Pode ser que ele ganhe dinheiro no curto prazo, afinal, o orçamento da TV aberta ainda é gigantesco. Mas, a longo prazo, ele virou as costas para o futuro. A internet é a realidade descentralizada; a TV é o passado centralizador.
A lição que fica é amarga, mas necessária: a liberdade de expressão incomoda. E o sistema sempre vai buscar formas, rostos e narrativas amigáveis para nos convencer a entregar as chaves da nossa liberdade em troca de uma falsa sensação de segurança. Não caia nessa. A realidade sempre se sobrepõe à narrativa.
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