O que vou analisar aqui é a diferença entre a narrativa vendida pelo mercado e a realidade dos fatos. Em setembro, duas empresas americanas, a First Brands e a Tricolor, simplesmente evaporaram. Para quem olhava de fora, parecia impossível. Eram empresas com décadas de existência, consolidadas e, o mais grave, com classificação de crédito "top de linha", nota máxima.
O resultado? Fundos de pensão, aqueles que investem o dinheiro da aposentadoria de trabalhadores e que, por lei, só podem aplicar em coisas seguras, estavam com dinheiro nessas empresas. De um dia para o outro, o investimento virou pó.
Isso não foi um acidente. Foi a realidade se impondo à narrativa. A investigação dos bastidores mostra um cenário bem diferente daquele pintado pelas agências de classificação de risco.
O negócio dessas empresas era focado em empréstimos de alto risco, chamados lá de "segunda linha" (ou subprime), mas não para casas, e sim para automóveis. O mercado delas era muito específico: imigrantes não documentados. A lógica era simples. Nos Estados Unidos, especialmente em cidades como as da Flórida, o carro não é luxo, é uma necessidade absoluta, quase obrigatória. O imigrante que chega lá sem a documentação completa não consegue abrir conta em banco grande, muito menos conseguir uma pontuação de crédito.
A First Brands e a Tricolor entravam exatamente aí. Elas financiavam o carro para esse público, cobrando juros mais altos. A narrativa que elas vendiam aos investidores era que, apesar de ser um público sem documentos, eles eram ótimos pagadores. E por que? Porque o maior interesse desse imigrante é conseguir ficar no país. Ele sabe que se arrumar confusão de crédito, se não pagar uma conta, suas chances de se legalizar diminuem drasticamente. Então, eles pagavam rigorosamente em dia.
O negócio parecia perfeito e cresceu por décadas. Até que um fato político mudou o jogo: a eleição de Donald Trump.
A política de Trump de deportação em massa e o aumento da fiscalização atingiram o modelo de negócios dessas empresas de duas maneiras fatais. A primeira é óbvia: o imigrante que é deportado não tem como continuar pagando o empréstimo do carro. A segunda, e mais impactante, foi o medo. Os imigrantes que ficaram nos Estados Unidos, mesmo os que não foram deportados, ficaram com medo. Ninguém mais quis comprar carro financiado, ninguém quis fazer dívida. O foco passou a ser guardar dinheiro, temendo o dia de amanhã.
De uma hora para outra, o fluxo de novos clientes que alimentava o sistema secou. E aqui está o ponto central da análise: a política de Trump não quebrou as empresas. Ela apenas revelou a fraude que já estava acontecendo lá dentro.
Quando a maré baixou, quando o dinheiro novo parou de entrar, os esquemas contábeis fraudulentos foram expostos. Descobriu-se que a Tricolor, por exemplo, usava os mesmos pacotes de dívidas (o empréstimo do carro do Fulano e do Beltrano) como garantia para pegar dinheiro emprestado em vários bancos diferentes ao mesmo tempo, como o JP Morgan e o Citybank. Cada banco achava que tinha a garantia daquele carro, mas a garantia tinha sido "multiplicada" em fraude.
A First Brands, que pediu recuperação judicial, deve 11 bilhões de dólares aos bancos. A Tricolor pediu falência direta, o chamado "Capítulo 7", que é basicamente fechar as portas e vender o que sobrou.
É preciso ter calma. Isso não é a crise de 2008. O mercado de carros, embora grande, movimenta valores muito menores que o mercado imobiliário. O prejuízo para os bancos existe, mas não deve causar um efeito cascata que derrube o sistema.
O alerta, no entanto, é seríssimo. O mercado americano cresce há tanto tempo que a busca desesperada por resultados leva gestores a fazer qualquer coisa para mostrar lucratividade aos acionistas. A pergunta que fica é: quantas outras empresas "Nota A" estão, neste exato momento, cometendo fraudes internas que só não apareceram ainda porque a economia continua crescendo?
E o que o Brasil tem a ver com isso? Alguns podem dizer que isso é um problema americano. Para não enxergar a conexão, parece que "falta uma pecinha na cabeça". A realidade é direta: se os Estados Unidos entram numa crise séria, o Brasil entra junto, e bonito.
O grande problema é que o governo Lula nos colocou numa posição de extrema vulnerabilidade. O Brasil hoje tem muito pouca capacidade de resposta a uma crise mundial. O que vimos com a Tricolor e a First Brands não é a crise em si, mas o sintoma. É a realidade destruindo a narrativa. Cabe a nós, cidadãos, parar de acreditar em contos de fadas do mercado e começar a questionar os fatos.
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