A escolha do deputado Paulinho da Força, um conhecido político de esquerda com ligações notórias com o STF, para relatar o projeto de anistia dos presos de 8 de janeiro caiu como um balde de água fria na esperança de milhares de famílias brasileiras. Após a vitória expressiva da aprovação do regime de urgência, com 311 votos, que tirou o projeto do labirinto das comissões e o colocou diretamente no plenário, a indicação de um nome hostil à causa soou para muitos como o fim da linha. O sentimento que se espalha é o de angústia, a sensação de que, no Brasil, a corda sempre arrebenta para o lado do cidadão comum, que vê a justiça ser negociada em gabinetes fechados por interesses que pouco têm a ver com o anseio popular por pacificação e liberdade.
A "abordagem tradicional" que a velha mídia e os porta-vozes do sistema tentam emplacar é a da derrota inevitável. Eles humanizam a figura do relator como um carrasco implacável e desconstroem a vitória dos 311 votos como um mero acaso, uma formalidade sem peso real. A narrativa oficial é clara: apresentar Paulinho da Força como o "vilão conveniente", o obstáculo intransponível que justifica o fracasso da anistia. O objetivo é desmobilizar a sociedade, criar um clima de desespero e aceitação, para que qualquer migalha oferecida ao final seja vista como um grande favor, e não como o resultado de uma luta legítima por direitos fundamentais. Essa tática, a "narrativa da conveniência", serve para mascarar a derrota que o governo sofreu em plenário e transferir a responsabilidade do resultado para um único ator, absolvendo o sistema como um todo.
Contudo, uma análise fria e lógica dos fatos nos obriga a fazer algumas perguntas. Se a causa já estava perdida, por que o governo se mobilizou de forma tão intensa, contatando deputado por deputado para barrar a urgência? Se a anistia é um tema morto, por que a reação de figuras como o deputado Lindberg Farias foi de descontrole e desespero após a votação? A matemática do poder não mente: 311 votos representam uma força política equivalente à aprovação de uma emenda constitucional. Seria razoável supor que toda essa força se curvaria silenciosamente à caneta de um único relator, por mais alinhado que ele esteja com o sistema? A verdade é que a escolha de Paulinho da Força não é um sinal de força do governo, mas sim uma manobra reativa, uma tentativa de controlar os danos de uma derrota acachapante e de transformar uma vitória da oposição em uma negociação com cartas marcadas.
A tese central que se impõe, portanto, é que a batalha pela anistia entrou em uma nova fase: a da guerra de narrativas e da negociação nos bastidores. O verdadeiro inimigo não é um deputado, mas a desinformação e o desânimo que tentam semear. O texto original do projeto, proposto pelo ex-senador Marcelo Crivella, já não previa uma anistia irrestrita; ele excluía crimes de dano, o que, na prática, já o configurava como um projeto de "redução de penas". As sentenças de 17 ou 27 anos seriam convertidas para algo em torno de 2 anos e meio. Para a maioria dos presos, que já cumprem pena preventiva há mais tempo que isso, significaria a liberdade imediata. Para outros, como o ex-presidente Bolsonaro, representaria um abrandamento da pena, ainda que com consequências políticas como a inelegibilidade, algo que ele mesmo já teria sinalizado aceitar em prol de uma solução.
A solução concreta, portanto, passa pelo "realismo estratégico". A negociação é inevitável. O que está em jogo é a liberdade de centenas de brasileiros, e o caminho para isso pode não ser a anistia total, mas a redução substancial das penas. Pense nisso como uma negociação para libertar reféns: o objetivo primário é garantir a vida e a liberdade deles, mesmo que isso implique em concessões táticas. A força dos 311 votos dá à oposição poder de barganha para rejeitar um relatório que desfigure completamente o projeto e até mesmo para apresentar um texto alternativo em plenário. A pressão não pode parar.
O que se pede agora é uma revolução mental. É preciso abandonar a mentalidade do "tudo ou nada" e adotar a vigilância estratégica. A sociedade precisa entender que a aprovação da urgência foi o primeiro grande passo, mas a caminhada ainda é longa. A convocação é para que cada cidadão fiscalize seu deputado, questione as narrativas fáceis da imprensa e entenda que, em Brasília, acordos são costurados longe dos holofotes. A liberdade dos presos de 8 de janeiro não será dada de presente; ela será conquistada através de pressão constante, inteligência política e a recusa em aceitar a narrativa da derrota.
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