Quando a diretoria de um dos maiores bancos do país precisa recorrer à intervenção divina antes de apresentar seus resultados, sabemos que a situação na Terra abandonou a lógica e abraçou o desespero. Segundo relatos de bastidores, a cúpula do Banco do Brasil teria feito uma oração antes de divulgar o balanço do terceiro trimestre de 2025. O motivo do clamor aos céus? Um tombo de 60% no lucro da instituição.
Como engenheiro e analista que vive de examinar dados frios, afirmo: não existe milagre que corrija a falta de gestão técnica. A realidade, mais uma vez, se impôs sobre a narrativa. Enquanto a administração federal tenta vender a imagem de normalidade, os números gritam o oposto.
O abismo entre o público e o privado
Para entender a gravidade do que está acontecendo, precisamos olhar para o mercado como um todo. No Brasil, banco é um negócio que, historicamente, dá lucro até em tempos de crise. É a "casa" que nunca perde. Basta observar os concorrentes privados: o Bradesco apresentou uma rentabilidade sobre o patrimônio de 14%; o Santander, de 17%.
E o Banco do Brasil, sob a tutela estatal? Amargou uma rentabilidade de apenas 8%.
Não se trata de uma crise sistêmica do setor bancário, mas de uma crise localizada na gestão pública. Quando você compara o desempenho dos bancos privados com o da estatal, a diferença é gritante. O setor privado, guiado pela eficiência e pelo lucro, prospera. O setor público, guiado por interesses políticos e loteamento de cargos, definha. É a prova matemática de que o Estado não sabe gerir empresas.
O "toque de Midas" ao contrário
A explicação para esse desastre não é complexa. Ocorre o aparelhamento da máquina. O governo atual repete a velha fórmula que já levou o país ao buraco anteriormente: substitui-se a competência técnica pelo alinhamento ideológico. Cargos de direção, que deveriam ser ocupados por gestores de carreira, são preenchidos por sindicalistas e aliados políticos que pouco ou nada entendem do mercado financeiro.
O resultado é o que chamo de "toque de Midas ao contrário": tudo o que o governo toca, em vez de virar ouro, perde valor. Vimos isso acontecer com os Correios, que beiram a inviabilidade operacional; vemos com as companhias Docas e agora assistimos, incrédulos, ao desmonte de um gigante financeiro.
O relatório do banco aponta a inadimplência no setor rural como um dos vilões do resultado. Mas sejamos honestos e vamos à raiz do problema: essa inadimplência não caiu do céu. Ela é fruto direto da postura hostil que o atual governo adotou contra o agronegócio desde o primeiro dia de mandato. Quando o Executivo declara guerra ao motor econômico do país, criando insegurança jurídica e instabilidade, o produtor rural é asfixiado. O calote no banco é apenas o sintoma final de uma política desastrosa de perseguição a quem produz.
O mercado reage e o futuro preocupa
O mercado financeiro, que não tem partido e visa apenas o resultado, já precificou a incompetência. O Citibank, por exemplo, reduziu o preço-alvo da ação do Banco do Brasil, cortando seis reais de sua projeção. Isso significa que o patrimônio dos investidores — e, em última análise, o patrimônio do povo brasileiro, que é o verdadeiro dono do banco — está virando pó.
No entanto, há uma ironia interessante no horizonte, uma espécie de justiça poética trazida pela própria legislação. O novo arcabouço fiscal, muitas vezes criticado por sua fragilidade, possui uma trava importante. Com o déficit primário se acumulando em 2025 devido a essa má gestão generalizada das estatais, a lei determina que, em 2026, o governo fique impedido de aumentar gastos reais acima de 0,6%.
Isso significa que, justamente no ano eleitoral, a irresponsabilidade fiscal de hoje pode engessar a máquina de gastos populistas do governo amanhã. O governo pode tentar manobrar, dizer que a regra só vale para 2027, mas a lei está lá.
Conclusão: A necessidade de uma revolução mental
O caso do Banco do Brasil é pedagógico. Ele ilustra a falência do modelo de Estado empresário. Para aqueles que ainda defendem que o governo deve controlar setores estratégicos, falta, com todo o respeito, aquela "pecinha" na engrenagem do raciocínio lógico. Não há soberania em ter empresas estatais deficitárias; há apenas prejuízo para o pagador de impostos.
Precisamos parar de aceitar a mediocridade como padrão. A solução não está em trocar o diretor do banco, mas em mudar a mentalidade de que o Estado deve ser o motor da economia. O Estado deve ser pequeno, focado em segurança, justiça e regulação mínima, deixando a iniciativa privada gerar riqueza.
Se nem com reza brava a diretoria conseguiu salvar o lucro do trimestre, não será com discursos vazios que salvarão a economia. Precisamos de liberdade econômica real e gestão técnica. Até lá, continuaremos pagando a conta de um governo que sabe gastar muito bem, mas não tem a menor ideia de como gerar valor. Que este episódio sirva de alerta: ou mudamos a rota, ou o buraco será muito mais fundo.
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