O cenário jurídico brasileiro viveu momentos de alta tensão e revelações importantes recentemente, marcados pela estreia do ministro Luiz Fux na Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal (STF). O que deveria ser um rito processual comum transformou-se em um palco onde as contradições do nosso sistema judiciário ficaram expostas sob a luz do sol. Para quem analisa os fatos com frieza, longe das paixões ideológicas e do politicamente correto, a movimentação das peças nesse tabuleiro revela muito mais do que simples trocas de cadeiras.
A recepção de Gilmar Mendes a Luiz Fux foi o ponto de partida para entendermos a guerra de narrativas em curso. Em um discurso que soou mais como um aviso do que como boas-vindas, Gilmar afirmou que a Segunda Turma teria "resistido ao autoritarismo da Lava Jato" e seria a guardiã da liberdade. Aqui, o observador atento precisa pausar e questionar: de qual liberdade estamos falando?
A dissonância cognitiva é gritante. O mesmo ministro que critica o ex-juiz Sérgio Moro e a força-tarefa de Curitiba por um suposto "autoritarismo" é aquele que, hoje, compactua com o inquérito das "fake news" e as ações do ministro Alexandre de Moraes. É preciso ter coragem para dizer o óbvio: a Lava Jato, com todos os seus processos, levou seis anos de investigações, contou com inúmeras delações, devolução de dinheiro roubado aos cofres públicos e julgamentos confirmados em três instâncias. Havia o devido processo legal.
Em contrapartida, o que vemos atualmente, e que é defendido por Gilmar como "defesa da democracia", são processos sumários, prisões preventivas utilizadas como forma de coação — como no caso de Filipe Martins — e o atropelo do sistema acusatório. Acusam a direita de crimes sem lógica, como a narrativa de um golpe no dia 8 de janeiro, quando o ex-presidente já não tinha mais comando sobre as Forças Armadas. Critica-se o método de Moro, mas aplaude-se um método muito mais agressivo quando o alvo é a oposição política. Parece que falta uma peça na engrenagem lógica desse discurso para que ele faça algum sentido.
Além do embate ideológico, a sessão revelou o clima belicoso entre os próprios ministros. Houve um bate-boca revelador entre Dias Toffoli e André Mendonça. A discussão girou em torno da conduta de juízes darem entrevistas, uma prática considerada ilegal e inconstitucional por ambos. A ironia fina, que não escapa a quem acompanha os bastidores, é que esse debate ocorria justamente na frente de Gilmar Mendes, conhecido por sua onipresença na mídia, concedendo entrevistas de manhã, à tarde e à noite para diferentes veículos de comunicação.
No entanto, para além do teatro das tesouras togadas, há um dado prático e matemático que merece atenção. A nova composição da Segunda Turma traz uma mudança de equilíbrio de forças. Composta agora por Gilmar Mendes, Dias Toffoli, Nunes Marques, André Mendonça e Luiz Fux, o colegiado passa a ter, em tese, uma maioria técnica e mais alinhada a uma visão garantista que não seja seletiva apenas para amigos do rei.
Essa nova configuração gera apreensão no sistema estabelecido, especialmente no que tange aos recursos do ex-presidente Jair Bolsonaro. Processos cruciais, como o recurso contra a inelegibilidade decretada pelo TSE (pelo episódio da reunião com embaixadores) e eventuais revisões criminais, estão sob a relatoria de Fux ou podem ser decididos por essa turma. Se a lei fosse seguida à risca, sem interferências políticas, a matemática de três votos contra dois poderia, em tese, reverter condenações ou a própria inelegibilidade.
Contudo, como analista pragmático, não vendo ilusões. Sabemos que o STF atual opera sob uma lógica própria, onde muitas vezes a vontade de um ministro — especificamente Alexandre de Moraes — parece se sobrepor ao regimento e à própria Constituição. Embora a Segunda Turma apresente agora uma janela de oportunidade para julgamentos mais técnicos e menos políticos, o sistema possui mecanismos de autodefesa robustos para manter suas decisões, especialmente aquelas que visam retirar opositores da cena política.
O Brasil precisa voltar aos trilhos da normalidade institucional, onde a justiça não tem lado e a lei vale para todos, não apenas para os aliados de ocasião. A chegada de Fux à Segunda Turma pode não resolver todos os problemas, mas certamente tornará a vida daqueles que sequestraram a narrativa democrática muito mais difícil. A verdade é filha do tempo, e as contradições, cedo ou tarde, acabam por implodir.
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