O documento que circula em Brasília não é apenas uma lista de queixas. É um dossiê que organiza, em 77 eventos específicos, uma linha do tempo de como princípios básicos da lei vêm sendo sistematicamente testados no Brasil nos últimos anos
Tudo começa com a anomalia jurídica do Inquérito 4781, o chamado "Inquérito das Fake News". Instaurado de ofício, ou seja, pela própria corte, e com um relator designado nominalmente, ele quebrou a lógica do nosso sistema acusatório. A prova mais clara disso? Em abril de 2019, a Procuradoria-Geral da República (PGR), que é a titular da ação penal, promoveu o arquivamento do inquérito. O ministro Alexandre de Moraes ignorou o pedido. Naquele momento, o juiz assumiu também o papel de acusador, e a separação de poderes começou a ruir.
A partir dessa base, o que o dossiê demonstra é uma escalada de atos contra o que a Constituição garante como liberdade de expressão. Vimos a censura à revista Crusoé e ao site O Antagonista por uma reportagem que citava documentos da Lava Jato. Vimos a Jovem Pan ser proibida de usar termos como "ex-presidiário" para se referir a um político.
O documento também aponta que o ato de fiscalizar ou questionar passou a ser tratado como crime. O Partido Liberal (PL) foi multado em impressionantes 22,9 milhões de reais por apresentar uma representação ao TSE questionando o funcionamento de urnas. Parlamentares que protestavam pacificamente na Praça dos Três Poderes, um deles com a boca tapada, receberam ordem de retirada sob risco de prisão.
A ferramenta usada para calar a opinião é, segundo a cronologia dos fatos, a força desproporcional. O dossiê lista que empresários foram alvos de busca e apreensão por conversas em um grupo privado de WhatsApp. A rede social X (antigo Twitter) foi bloqueada em todo o território nacional. Indo além, o documento aponta o bloqueio de contas da Starlink, uma empresa de internet, por causa das ações do X, simplesmente por terem um acionista em comum. Isso é o equivalente a fechar uma rodovia inteira porque um único carro estava em alta velocidade.
Contudo, o ponto mais sensível, juridicamente, é a aparente confusão de papéis. A lei é clara: um juiz não pode julgar uma causa em que ele é vítima ou parte interessada. O dossiê lista dezenas de casos onde o princípio da imparcialidade judicial é colocado em xeque
E essa erosão do devido processo legal tem custos reais e trágicos. O caso de Clériston Pereira da Cunha, o "Clezão", é o mais grave. Preso pelo 8 de janeiro, sofrendo de comorbidades graves, ele teve um parecer favorável da PGR para sua soltura. O pedido, segundo o dossiê, ficou 80 dias sem análise. Clériston morreu de um mal súbito na prisão. Isso não é política; é uma falha fatal do sistema de garantias.
A análise fria dos 77 fatos listados mostra que o debate não é sobre esquerda ou direita. É sobre a existência ou não do "devido processo legal"
Tentar consertar o Brasil aplaudindo essas decisões é como tentar arrumar uma rachadura na parede de uma casa cujo alicerce está podre. A estrutura toda está comprometida. A única solução é voltar ao projeto original: a Constituição. Restaurar a separação de poderes e garantir que ninguém, absolutamente ninguém, esteja acima da lei.
A revolução que precisamos é mental. É parar de torcer em briga de políticos e começar a fiscalizar o cumprimento das regras do jogo. A liberdade, como diz o próprio documento, exige a verdade
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