A aprovação da obrigatoriedade do voto impresso na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado gerou uma onda de comemoração em parte da sociedade. A sensação é a de uma vitória, um passo rumo à transparência eleitoral que tantos cidadãos anseiam. Contudo, enquanto os olhos se voltam para essa suposta conquista, um perigo muito mais concreto e imediato avança silenciosamente no mesmo texto do novo Código Eleitoral: a institucionalização de um mecanismo de controle sobre a informação que ameaça sufocar o debate político no país. O que está em jogo não é apenas um pedaço de papel saindo da urna, mas a própria liberdade do brasileiro de fiscalizar e criticar o poder, especialmente durante o período eleitoral.
A Narrativa da Solução Mágica
Vamos direto ao ponto. A discussão sobre o voto impresso se tornou um fetiche, uma espécie de "solução mágica" para a desconfiança que paira sobre o sistema eleitoral. A ideia de ter um comprovante físico do voto parece, à primeira vista, um avanço inegável. É o que podemos chamar de "abordagem da segurança tangível": se eu posso ver e tocar, eu posso confiar. O problema é que essa narrativa, embora popular, ignora fatos técnicos e logísticos básicos e, mais grave, serve como uma distração perfeita para a agenda de controle que vem embutida no projeto.
A realidade, com a frieza dos dados que um engenheiro como eu preza, é que a implementação do voto impresso em um país com as dimensões e os desafios logísticos do Brasil é uma fantasia a curto e médio prazo. Estamos falando de um processo que envolve licitações, compra de centenas de milhares de impressoras, desenvolvimento de software, testes exaustivos e distribuição para os lugares mais remotos, como o interior da Amazônia. Sendo otimista, talvez vejamos algo assim funcionando em 2036. A pergunta que fica é: faz sentido comemorar uma solução para daqui a uma década, enquanto se ignora uma ameaça que valerá para a próxima eleição?
Além disso, a crença de que o papel acabará com as acusações de fraude é de uma ingenuidade preocupante. As mesmas pessoas que hoje afirmam, sem provas, que digitaram um número e a urna mostrou outro, amanhã dirão que o papel imprimiu o candidato errado. A raiz do problema não está na tecnologia, mas na politização da desconfiança. O voto impresso não resolve isso; apenas cria um segundo ponto de ataque para quem quer tumultuar o processo, dobrando as oportunidades de fraude e diminuindo a segurança geral do sistema.
O Verdadeiro Inimigo: A Lei da Mordaça Eleitoral
Enquanto a nação debate essa miragem, a parte realmente nociva do Código Eleitoral avança. Em seu texto, estão artigos que criminalizam a divulgação de "fatos sabidamente inverídicos" durante a campanha. Quem define o que é "inverídico"? Um sistema judicial que já deu mostras de sua parcialidade? O texto abre margem para que qualquer crítica mais dura a um candidato ou partido seja enquadrada como crime.
Pense nisso: em ano eleitoral, do primeiro dia de janeiro até a votação, o cidadão e a imprensa terão que pisar em ovos. Uma análise mais contundente, uma denúncia ainda sem trânsito em julgado, tudo poderá ser interpretado como "fake news" com o objetivo de influenciar o eleitorado. Na prática, é a oficialização da censura. É dar ao Estado uma arma para calar a oposição, porque, sejamos honestos, sabemos contra quem essa lei será usada. Críticas à esquerda se tornarão desinformação; ataques à direita continuarão sendo "liberdade de expressão".
Essa é a "armadilha da solução fácil". Oferece-se ao povo uma vitória simbólica e inócua — o voto impresso — e, em troca, aprova-se um mecanismo real e eficaz de controle social e político. É o cavalo de Troia perfeito: um presente que esconde o inimigo em seu interior.
A Revolução Mental: Focar no Essencial
A solução não está em um pedaço de papel. A verdadeira segurança de uma democracia reside na liberdade irrestrita de seus cidadãos de debater, criticar, questionar e até mesmo errar. A cura para a desinformação não é a censura, mas o livre fluxo de mais informação, onde as boas ideias e os fatos prevalecem pela força da lógica.
A analogia é simples: estão nos oferecendo um cadeado novo e reluzente para a porta da frente, enquanto deixam a porta dos fundos escancarada para o ladrão da liberdade entrar.
Portanto, a chamada aqui não é para uma ação física, mas para uma revolução mental. É um convite para que cada cidadão olhe além da cortina de fumaça. Devemos rejeitar as narrativas simplistas e focar no que é fundamental. A luta prioritária não deveria ser por um comprovante de papel, mas contra a mordaça que querem nos impor a cada dois anos. É hora de defender os princípios da liberdade de expressão com a mesma paixão com que se debate a tecnologia da urna, pois sem a primeira, a segunda não passa de um detalhe irrelevante.
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