A atuação de um juiz da mais alta corte de um país deveria ser sinônimo de imparcialidade, técnica e distanciamento do jogo político. Contudo, a realidade que se desenha no Brasil passa longe desse ideal. Uma recente matéria da Folha de S. Paulo, um dos maiores jornais do país, escancarou uma teia de poder e influência tecida pelo ministro Alexandre de Moraes, que levanta sérias questões sobre a separação dos Poderes e a própria saúde da nossa democracia. O jornal detalha a rede, mas trata como "habilidade política" o que a lei descreve friamente como crime de responsabilidade, uma normalização perigosa que atinge diretamente a confiança do cidadão nas instituições. As famílias brasileiras, que trabalham e esperam por justiça, assistem a um espetáculo onde as regras parecem não se aplicar a quem veste uma toga.
A narrativa oficial, replicada por parte da imprensa, é a da "articulação necessária". Vendem a ideia de que, para garantir a "governabilidade" ou "proteger a democracia", um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) precisa construir pontes com o Legislativo e o Executivo. A matéria da Folha é um exemplo perfeito dessa abordagem superficial. Ela descreve, com uma naturalidade assustadora, como Moraes utiliza sua posição para garantir influência, emplacar aliados em cargos de poder e, o mais grave, se proteger de adversários e de processos como o impeachment. A reportagem lista uma série de encontros e alianças que, para qualquer cidadão com o mínimo de bom senso, soam como um alarme ensurdecedor.
A análise crítica que a grande mídia se recusa a fazer é a de que essa "articulação" tem um vilão conveniente: a suposta ameaça de uma "extrema-direita" que justificaria qualquer desvio. Nessa lógica, vale tudo para combater o inimigo imaginário, inclusive atropelar a Constituição. A Folha enumera os fatos: jantares semanais de Moraes com os presidentes do Senado, Rodrigo Pacheco e Davi Alcolumbre – os mesmos que têm o poder de pautar seu impeachment. Contatos próximos com ex-presidentes da Câmara, como Arthur Lira e Rodrigo Maia. Reuniões com banqueiros para discutir o impacto de sanções internacionais contra o próprio ministro. Aproximação com o presidente Lula, com quem discute a nomeação de ministros para o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Isso é jornalismo ou assessoria de imprensa?
Diante desses fatos, algumas perguntas se impõem e demolem a narrativa da conveniência. Que tipo de imparcialidade pode ter um juiz que confraterniza semanalmente com os políticos que deveria, em última instância, julgar ou fiscalizar? Como a população pode confiar em um sistema onde o presidente do Senado, responsável por analisar um pedido de impeachment contra um ministro, declara abertamente que jamais o pautaria, após inúmeros encontros privados? Que coincidência conveniente é essa, onde um ministro do STF lidera um voto para anular a condenação criminal de um aliado político, o sindicalista Paulinho da Força, por lavagem de dinheiro e associação criminosa? Será que nesses encontros com Lula e outros políticos se discute apenas a tabela do campeonato de futebol, como ironiza a fonte, ou a pauta é a perseguição a opositores e a blindagem mútua?
A tese central que emerge dessa análise é inescapável: estamos diante de um político de toga que instrumentaliza o cargo mais alto do Judiciário para construir uma fortaleza de impunidade. O verdadeiro inimigo da democracia não é este ou aquele grupo político, mas o abuso de poder que corrói as instituições por dentro. A Lei do Impeachment (Lei 1.079/1950) é clara em seu artigo 39: é crime de responsabilidade de um ministro do STF "exercer atividade político-partidária" e "proferir julgamento quando por lei seja suspeito na causa". A reportagem da Folha, sem querer, entregou um dossiê completo que comprova a prática de ambos os crimes.
A solução para esse impasse não é complexa, ela está escrita na lei e se chama responsabilidade. O caminho é a aplicação dos mecanismos que a própria Constituição prevê para frear o abuso de poder. É preciso restabelecer o princípio de que ninguém está acima da lei, independentemente do cargo que ocupe. A situação é análoga a um árbitro de futebol que, antes do jogo, janta com o capitão de um dos times e combina o resultado. Nenhum torcedor aceitaria isso, e nenhum cidadão deveria aceitar o que está acontecendo no Brasil.
Portanto, a chamada à ação é uma revolução mental. É um convite para que cada brasileiro rejeite as narrativas simplistas e a normalização do absurdo. É hora de questionar ativamente por que a grande mídia se cala diante de fatos tão graves e de cobrar uma postura firme dos representantes eleitos. A defesa da liberdade e da verdadeira justiça começa quando paramos de aceitar que as regras do jogo sejam manipuladas diante de nossos olhos.
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